(texto publicado no Observador a 15.09.2024)
O vírus monkeypox não é um vírus novo. Foi identificado pela primeira vez em 1958 e o primeiro caso num ser humano foi descrito em 1970. Então porque é que a OMS está preocupada agora? E porque é que o debate do momento é sobre enviar ou não enviar vacinas para África?
Mpox e monkeypox
O vírus monkeypox, ou vírus da varíola dos macacos, deve o nome a ter sido identificado pela primeira vez num grupo de macacos da espécie Macaca fascicularis, recém-chegados a um laboratório de investigação dinamarquês em 1958. O vírus causava uma doença semelhante à varíola mas era diferente do vírus da varíola (smallpox virus) e de todos os outros vírus da mesma família. Era um vírus novo. Ao longo dos anos 1960 percebeu-se que o vírus não era exclusivo dos macacos, infectando também outros pequenos mamíferos, sobretudo roedores, na região da África Ocidental (que inclui países como a Guiné-Bissau, a Nigéria e a Costa do Marfim) e na bacia do rio Congo (que inclui Angola, o Ruanda e a República Democrática do Congo).
O nome da doença (monkeypox ou varíola dos macacos) acabou por ser mudado para Mpox, ou varíola M, pela OMS. Não só o vírus não era de facto exclusivo dos macacos, como se quis retirar o estigma que o nome lançava sobre os pobres animais. Na linha, de resto, do que se fez há anos com a gripe A (anteriormente gripe dos porcos). O vírus, contudo, continua a chamar-se monkeypox.
Do macaco ao homem
Porque é que um vírus que infecta macacos e esquilos começa de repente a infectar pessoas? Para os vírus, a passagem de um hospedeiro para outro, de um animal para outro animal ou para o ser humano, é um pouco como, para nós, mudar de país: é preciso aprender uma língua nova, trocar moeda - no caso do vírus, é preciso sofrer uma alteração no seu código genético (uma mutação) que lhe permita “falar” um novo dialecto - produzir proteínas capazes de interagir com as proteínas e as células de um novo hospedeiro, ligeiramente diferentes das do hospedeiro original. Isso não é difícil para um vírus. As mutações resultam geralmente de erros que ocorrem durante a replicação (isto é, a duplicação) do código genético e é uma simples questão de tempo até que ocorra a mutação certa. Ora um vírus replica-se muito depressa, a intervalos de poucos dias entre cada duas gerações. Mesmo os vírus DNA, como o monkeypox, embora relativamente estáveis, sofrem mutações a um ritmo suficientemente rápido para conseguirem adaptar-se a sucessivos hospedeiros.
O primeiro caso num ser humano terá sido, em 1970, um rapaz de nove anos que vivia em Basankusu, no antigo Zaire (agora República Democrática do Congo). O doente apresentava erupções da pele semelhantes à varicela e o vírus foi isolado nessas lesões. Não é claro como terá o rapaz sido contaminado mas, nos anos seguintes, a maioria dos casos em que foi possível rastrear a origem da exposição ao vírus, esta foi a ingestão de carne de animais infectados ou a mordedura de animais infectados.
Depois, em 2003, um surto nos EUA veio mostrar a facilidade com que o vírus podia atravessar barreiras entre espécies e entre continentes. No dia 24 de maio de 2003, a divisão de saúde pública do Wisconsin foi informada de que uma menina de 3 anos estava hospitalizada com febre e lesões cutâneas, depois de ter sido mordida por um cão da pradaria (Cynomys ludovicianus), que é um roedor comercializado como animal de estimação na América do Norte. Dois dias depois foi registado o segundo caso: um comerciante de animais, residente noutra zona do estado e que também tinha sido mordido por um cão da pradaria. Dois meses mais tarde, no fim de julho, havia 72 casos confirmados ou suspeitos no Wisconsin, Illinois e Indiana. A investigação permitiu rastrear todos os casos até um distribuidor de animais exóticos do Illinois, que recebera pouco tempo antes um carregamento de animais infectados proveniente do Gana, na África Ocidental. Os cães da pradaria tinham feito provavelmente a ligação entre os animais provenientes de África e os seres humanos.
Out of Africa
Mas porque é que a OMS está preocupada agora?
Em primeiro lugar, porque o número de casos e a transmissão entre seres humanos estão a aumentar. Um artigo de 1988 sobre um estudo levado a cabo no Zaire entre 1980 e 1984 (os primeiros cinco anos após terminar a vacinação da varíola) concluiu que a vacina da varíola dava 85% de protecção contra o monkeypox (isto é, 85 de cada 100 casos de exposição ao vírus não eram infectados). Isto acontecia porque os vírus do género Orthopoxvirus, como o monkeypox, o smallpox ou o cowpox, são todos suficientemente parecidos para provocarem no hospedeiro fenómenos de imunidade cruzada - isto é, a imunidade contra um deles induz imunidade contra os outros. Foi essa a base da vacina da varíola que Edward Jenner desenvolveu em 1798, a partir de pessoas contaminadas com a varíola das vacas (daí o termo vaccinia, em latim, cunhado por Pasteur em 1879, em honra de Jenner).
O artigo concluía que, embora este fosse “consideravelmente menos transmissível” do que o vírus da varíola, a duração e a dimensão das epidemias tenderiam a aumentar à medida que a protecção da vacina da varíola diminuísse na população. De facto, depois do surto na América do Norte em 2003, que foi o primeiro surto fora do continente africano, outros casos começaram a surgir na Europa e na América do Norte, geralmente em pessoas que tinham viajado para zonas endémicas. Em maio de 2022 havia mais de seis mil casos em sessenta países e, em novembro de 2022, mais de 50 mil casos em todo o mundo.
Em segundo lugar, porque esta variante do vírus é aparentemente mais agressiva, transmitindo-se mais facilmente e causando mais mortes. O agente isolado em 2022 era a variante do vírus conhecida por 2b, endémica na África Ocidental. No surto de 2024, o agente é a variante 1b. Esta variante surgiu agora na mesma área onde é endémica há décadas a chamada variante 1 (agora 1a): as regiões de floresta da bacia do rio Congo. Só na República Democrática do Congo foram reportados este ano 18 mil casos e pelo menos 600 mortes.
Que fazer?
O vírus transmite-se basicamente por contacto directo com as lesões cutâneas ou com secreções (sangue, saliva ou urina), ou ainda pela mordedura e através da manipulação ou ingestão da carne crua ou mal cozinhada de animais contaminados. As recomendações da OMS para as zonas endémicas incluem evitar contacto com animais selvagens e cozinhar a carne durante pelo menos doze minutos a 70ºC (para inativar o vírus). Durante o surto de 2022 também se verificou um desvio significativo no padrão demográfico: 95% dos casos eram de homens com menos de 40 anos. A Mpox foi considerada pela OMS uma doença sexualmente transmissível (DST). Por outro lado, o contágio à distância, através de gotículas e aerossóis (tão temido na Covid) não parece ser importante.
Embora este surto de Mpox esteja a alastrar do Congo para os países vizinhos, como o Uganda, o Ruanda e o Quénia, só agora em agosto é que foram reportados os primeiros casos dora de África. A OMS, entretanto, recomenda que se limitem as viagens e deslocações. Mas restringir viagens nunca serviu de nada. Quarentenas e cordões sanitários não impediram a peste negra de entrar na Europa no século 14, ou a varíola de entrar em Boston em 1721. Nos anos 1960, a Europa e as Américas, que já tinham praticamente erradicado a varíola, tentaram impedir a entrada de viajantes provenientes de regiões endémicas (Índia e África) mas isso não impediu que os surtos se sucedessem. Enfim, como todos recordamos, não foram as quarentenas e os cordões sanitários que impediram a pandemia de Covid em 2020.
Só a prevenção da doença na origem pode impedir o alastramento. Foi assim com a varíola: foi uma estratégia global de vacinação que permitiu a erradicação no espaço de vinte anos, entre 1960 e 1980. Daí que a OMS tenha declarado em agosto a Mpox como emergência global de saúde, e que esteja a pedir que os países do Norte global financiem vacinas para os países do Sul. Existem duas vacinas disponíveis para fabricação em massa: uma produzida pela Bavarian Nordic (uma empresa com sede na Dinamarca e estruturas de investigação e produção na Suiça, Alemanha e Califórnia), que já foi aprovada pela FDA (Food and Drugs Administration) nos Estados Unidos e pela EMA (Agência Europeia do Medicamento) na União Europeia; e outra produzida pela KM Biologics (uma empresa japonesa).
As vacinas são seguras? Devem ser. São feitas com base nas mesmas estirpes virais que serviram para a produção das vacinas das campanhas de erradicação da varíola, no século 20. Não há registos de problemas maiores associados a essas campanhas.
As vacinas resultam? Um estudo de 2022 feito nos EUA apontou para 80% de eficácia com uma dose. Mas ainda é cedo para avaliar a sua eficácia real e perceber se as populações em África, que incluem grande número de crianças e doentes com depressão do sistema imunitário, terão uma resposta semelhante à das pessoas do estudo.
A ideia que corre é que o Ocidente rico gosta de anunciar ajudas aos países do Sul global mas que a passagem à prática é mais difícil. Posições como a da ministra da saúde dos Países Baixos, que se declarou contra o envio das vacinas para África com o argumento de que “podemos precisar delas”, parecem corroborar essa ideia. Mas é uma ideia errada. Há muito tempo que o Ocidente interiorizou que fornecer vacinas aos países atingidos não é um acto de caridade - é um investimento na segurança global. Mesmo se aceitarmos a afirmação do historiador grego Tucídides, de que o forte faz o que pode fazer e o fraco sofre o que tem de sofrer, acontece que os custos de uma campanha de vacinação em África são claramente inferiores aos custos de uma pandemia.
A OMS estima que vão ser necessários 10 milhões de doses para conter o surto. Até agora, os EUA ofereceram 50 mil doses e a UE outras 175 mil. Alemanha e França, 500 mil doses e 100 mil doses, respectivamente. E o Japão ofereceu 3,5 milhões de doses. A própria fabricante da vacina europeia, a Bavaria Nordica, terá oferecido mais de 200 mil doses. Mas as vacinas ainda não chegaram aos países que esperam por elas. Porquê?
Desta vez, o Norte global está inocente. O problema tem sido, quem diria, a burocracia da própria OMS, cujo processo de aprovação das vacinas se tem inexplicavelmente atrasado. A ausência de aprovação impede obviamente a entrega das vacinas pelos países doadores.
Entretanto, por cada mês que passa, mais gente fica infectada, maior é o território afectado e maior é a probabilidade de um surto fora de África.
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