A SIDA deixou de meter medo e nós deixámos de tomar cuidado.
Em junho de 2021, nos 40 anos da notificação dos primeiros casos de uma rara pneumonia entre a comunidade gay de Los Angeles, a revista médica inglesa Lancet lamentava em editorial que, apesar de todos os avanços técnicos, a erradicação da SIDA continuasse a ser uma miragem. Este pessimismo da Lancet parece deslocado quando vemos que os números globais (número de pessoas infectadas, número de novas infecções ou número de mortes devidas à infecção) têm diminuído consistentemente ao longo dos anos. A UNAIDS (o programa da ONU para a SIDA) fala mesmo em “resultados extraordinários”. Afinal em que ficamos?
O problema está nas assimetrias regionais. Na África sub-saariana, onde vivem quase dois terços de todos os infectados com HIV, houve uma redução de 57% nas novas infecções desde 2010, essencialmente através da redução da transmissão mãe-filho na gravidez e na primeira infância. Mas, na região da Ásia-Pacífico (que, sendo três vezes mais populosa do que África - quase 5 mil milhões de habitantes, contra 1,5 mil milhões - tem três vezes menos pessoas infectadas), o número de casos está a aumentar. A UE, apesar de todos os meios sanitários, diagnósticos e terapêuticos que possui e disponibiliza às suas populações, não tem conseguido reduzir a epidemia de forma significativa. E os EUA são o país mais afectado no espaço do Atlântico Norte, com mais de trinta mil novas infecções em 2022.
Olhemos para os números com mais atenção. Com excepção da África sub-saariana, onde as novas infecções se distribuem pela população geral e afectam sobretudo crianças e mulheres, nas sete restantes regiões definidas pela UNAIDS verifica-se que entre 60 e 99% das novas infecções são nas chamadas “populações-chave”. Essas “populações-chave” incluem, de acordo com a própria UNAIDS, “homens que têm sexo com outros homens”, pessoas transgénero, utilizadores de drogas injectáveis, prostitutas e os clientes destas. O mesmo perfil de risco aparece nos relatórios do CDC americano e do ECDC europeu. Porquê?
Em 40 anos não conseguimos, nem vacina nem cura para o HIV, mas conseguimos outras coisas. Novos fármacos e estratégias terapêuticas permitiram, não só minimizar os efeitos da infecção e prolongar a vida dos doentes, como manter o vírus indetectável e, com isso, bloquear a sua transmissão entre pessoas. É a estratégia U=U (undetectable = untransmittable, indetectável = intransmissível). Isso veio permitir, por exemplo, que mulheres infectadas pudessem engravidar e ter filhos livres de HIV. Os doentes voltaram a viver vidas (quase) normais, como se a doença não existisse.
Infelizmente, a percepção que houve de uma redução do risco de transmissão do HIV e da própria gravidade da doença parece ter conduzido a uma diminuição do uso do preservativo e ao aumento do número de parceiros sexuais. O fenómeno, a que os especialistas chamam compensação de risco, parece verificar-se particularmente nos grupos já referidos, o que é corroborado pelo facto desses mesmos grupos também apresentarem maior frequência de outras DST, como a sífilis, a gonorreia e a clamídia, que são doenças estreitamente associadas ao sexo desprotegido e a um maior número de parceiros sexuais.
O Treatment Action Group (TAG), uma organização americana que promove a prevenção e tratamento das doenças infecciosas de forma equitativa e inclusiva, considera a tese da compensação de risco um “raciocínio absurdo” e “paternalista”, mas a tese faz sentido. No seu relatório de 2019, ao discutir a relação entre o regresso das DST e o abandono do preservativo, o TAG esclarece que “o preservativo e a mudança de comportamentos não servem” a certas pessoas. Quais? O relatório indica vagamente “circunstâncias em que a negociação do preservativo não é uma opção com os parceiros sexuais”. Não detalha as circunstâncias, mas sabemos que uma delas é a prostituição envolvendo sexo desprotegido (bareback). Há quem pague especificamente por isso. Essas mesmas pessoas são hoje utilizadoras frequentes dos programas governamentais de PrEP (profilaxia pré-exposição, em que os fármacos anti-retrovirais são dados antes que a exposição ao vírus ocorra).
Esses programas, depois do primeiro entusiasmo, tornaram-se uma fonte de preocupação. A toma errática e as interrupções da medicação facilitam o aparecimento de novas estirpes resistentes aos fármacos. A protecção contra o HIV cria uma falsa segurança em relação a outras DST, como as hepatites B e C, a sífilis, a gonorreia e a clamídia. Os responsáveis dos serviços de saúde e de saúde pública têm perfeita noção desta realidade, mas não falam do assunto ou falam só por evasivas, possivelmente porque se sentem desconfortáveis em contrariar publicamente o discurso oficial, caracterizado pela indulgência e desculpabilização dos comportamentos de risco.
Quando começou a pandemia de SIDA, há 40 anos, o uso do preservativo e a redução da promiscuidade sexual foram conseguidos com campanhas fortes, focadas na responsabilidade individual. “Il ne passera pas par moi” (A SIDA não passará por mim) era o slogan da primeira campanha francesa, em 1987. Hoje, nos EUA, as National Academies, que são a academia de ciências local e que aconselham o governo em matérias científicas, afirmam que “O foco no risco sexual mostrou ser um paradigma limitativo, uma vez que o risco sexual pode ocorrer sem que haja vontade pessoal envolvida ou sequer noção do risco“; e o TAG deplora “campanhas baseadas na vergonha e no medo, como a famosa campanha ‘Trust Him?’ (Confia nele?) da AIDS Healthcare Foundation". Bom, mas qual é o mal de meter medo às pessoas sobre temas que são de meter medo?
Não. Para o TAG e as National Academies, o que é preciso são mais testes e mais tratamentos. Assustar ou responsabilizar as pessoas, isso não. É, no mínimo, incongruente numa época em que só se fala de empoderamento. Como é incongruente a defesa de mais indústria quando a sustentabilidade está na ordem do dia. Uma pegada de carbono gigantesca só porque alguém não quer usar a camisinha.
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